PULHAS (HOAX em inglês)

Leia este artigo e deixe de cair no conto da "pulha"
 

A vingança on-line da "loira do banheiro"

João Luís Rosa
14/9/2004 - Jornal Valor Econômico - Empresas & Tecnologia
São Paulo - SP

 
Hoax: é provável que você nunca tenha ouvido esta palavra antes, mas se você não passou os últimos dez anos na lua, ela com certeza já o surpreendeu, amedrontou ou, quem sabe, até comoveu. Hoax, em inglês, quer dizer simplesmente boato. Mas nos últimos anos a expressão ganhou um sentido mais específico - o das mentiras espalhadas via e-mail, pela internet. E haja mentira.

São tantas e tão difundidas, que já se transformaram em lendas urbanas. Algumas surgem travestidas de advertência. Como aquela sobre a quadrilha que rouba rins. Se uma linda garota der bola para você e o convidar para uma noite mais agitada, desconfie, diz a mensagem. Outros "dom juans" fizeram o mesmo e acordaram em uma banheira de motel, cheia de gelo, no dia seguinte. E o que é pior, sem os rins, que àquela hora já estariam sendo negociados no mercado negro de órgãos.

E que tal aquela sobre a injeção cheia de sangue contaminado com o vírus HIV, colocada estrategicamente em uma sala de cinema escura? Diversas pessoas já teriam sido infectadas, depois de sentar desavisadamente em uma poltrona dessas, alerta a mensagem.

Às vezes, em vez de assustar, o hoax assume ares de defesa do consumidor e passa a atacar marcas globais. O McDonald´s é uma das vítimas preferenciais. Primeiro, foi dito que o hambúrguer da rede de fast food era feito de carne de minhoca. Imagine a quantidade de minhocas que teriam de ser criadas para fazer um único sanduíche! Depois, como teoria da conspiração não tem limite, outra leva de mensagens passou a dizer que a multinacional criava uma espécie de "coisa", um animal que não tinha olhos, boca, nariz, pernas, nada. Era só um grande pedaço de carne viva.

Correntes milionárias são um capítulo à parte entre os boatos on-line, que vão e voltam. De vez em quando, circulam na internet mensagens segundo as quais grandes empresas estariam dispostas a distribuir prêmios - até em dinheiro - para quem se dispuser a transmitir a mensagem para outras pessoas. Nestlé, Ericsson e Nokia já foram vítimas desses boatos.

Outras vezes, os mentirosos de plantão apelam para os bons sentimentos dos internautas e pedem dinheiro para crianças doentes ou tentam comovê-los com denúncias de supostos maus tratos a animais. Um dos casos mais famosos é o dos "gatinhos bonsai". Com fotos de filhotes "engarrafados" - falsas é claro -, o hoax tecia críticas e lamentos sobre uma prática cruel, pela qual os bichinhos seriam enfiados em garrafas desde pequenos, sendo condenados a viver nesses recipientes pelo resto da vida.

A lista de esquisitices é interminável e inclui desde anúncios de vírus de computador inexistentes até a acusação de que as canetas Bic são, na verdade, sondas espiãs extraterrestres. Mas não importa o grau de excentricidade dos boatos, a questão é uma só: porque tanta gente dá crédito a elas, a ponto de retransmitir as mensagens aos amigos? Seria a internet a terra fértil da mentira?

Proliferam na web os boatos mais estranhos

Era isso que nisso que eu pensava quando me lembrei de um episódio da pré-adolescência. Como na maioria dos colégios da época, corria a história de uma loira fantasma que assombrava os banheiros escolares. As versões variavam, mas não em geral alguém jurava ter ouvido que o primo do amigo do irmão do vizinho conhecera uma moça misteriosa e que, ao final de uma festa, a beldade teria deixado o infeliz entrever um chumaço de algodão enfiado da boca. Prova incontestável, diziam, de que a mulher era um defunto.

Cético, eu nunca dei ouvidos aos colegas. Repetia o que ouvia em casa: que fantasma não existe! Até o dia em que, no intervalo das aulas, alguns deles apareceram brandindo um jornal. Apontavam, com ar acusador, para uma reportagem que sugeria fortemente que a loira de fato existia! Continuei negando a possibilidade, mas fiquei perturbado. Por que alguém se daria ao trabalho de escrever uma mentira? Se foi para o papel é porque deve ser verdade, pensava.

O mesmo raciocínio juvenil parece se aplicar à internet hoje. Não é que a web torne as pessoas mais crédulas. O que acontece é que os boatos se multiplicam mais rápido porque a rede mundial de computadores é um meio mais veloz e menos controlado que os demais.

O xis da questão, portanto, não é a tecnologia em si, mas seu poder de multiplicar as lendas urbanas que atiçam a imaginação das pessoas em qualquer tempo. Para quem duvida, vale lembrar o caso da Procter & Gamble. Desde a década de 80, bem antes da web, a empresa é alvo de boatos de uma esdrúxula ligação com o diabo. Uma das "evidências" seria o logotipo da companhia, adotado em 1851, e que retrata um homem e 13 estrelas, representando as 13 colônias que deram origem aos EUA. Interligando as estrelas, diziam "descobriram" os detratores da P&G, surgiria o número 666, identificado como o número da besta do Apocalipse. A história rendeu até processo judicial nos EUA, na década passada.

Muita gente, ao receber "notícias" como essas, costuma passá-las para a frente, às vezes acompanhadas de uma desculpa do tipo "não sei se é verdade, mas por via das dúvidas...". O melhor a fazer nesses casos é resistir à tentação da fofoca fácil e fazer exatamente o contrário: romper a corrente e aguardar até que a informação seja confirmada. Ou, melhor ainda, brincar de jornalista ou investigador e apurar os fatos.

Há algum tempo, recebi um e-mail sobre um laudo médico que confirmava casos de leptospirose contraída por pessoas que beberam refrigerante direto da latinha. A diferença em relação a tantos outros que recebera antes é que este trazia a assinatura de um professor de uma universidade reconhecida, com telefone e tudo. Em dúvida sobre a veracidade da mensagem, liguei para o número mencionado. Atendeu uma secretária educada, que confirmou que o professor existia e que ele tinha mesmo o cargo citado no e-mail. "Por quê?", perguntou em seguida. Quando contei o caso, ela suspirou desconsolada: "Ah, não, de novo esse e-mail..." A informação, contou a mulher, era absolutamente falsa e voltava de vez em quando, em ondas sucessivas de boatos. Talvez, quem sabe, por obra de um aluno que tirara nota baixa. Desliguei satisfeito. E tomei um refrigerante sem canudinho só para cantar vitória.

 

 

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